6.12.2018

Espelho


Ela se olhou no espelho, franziu a testa e se encarou por alguns segundos.
Os olhos eram expressivos e as profundas marcas das décadas eram presentes.
Podia-se ver a saudade em seus olhos, as lágrimas escorridas e a nostalgia.
Tanto se passou, tanto se viveu... sua expressão era cansada, porém faceira.
De relance percebeu que há tempos não reconhecia a expressão de seu reflexo.
Acariciou seu rosto, contornou seus lábios, seu nariz, sua sobrancelha e sorriu.
“Prazer em revê-la” - apagou a luz, fechou a porta e prometeu voltar em breve.

6.01.2018

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Apago a luz. Desabotoo os botões, desato nós.
Abafo os barulhos que ecoam dentro e fora.
Desafrouxo os laços. Fecho os olhos. Edifico.
Posso não ver, mas enxergo tudo com clareza.
Desnuda. Sozinha. No escuro, eu me reconheço.
Uma luz azul se propaga em meu peito.
Invade a sala, o quarto, a cozinha, meu lar.
Se torna um amarelo cintilante. Aconchegante.
Aquecida. Cheia de luz, me situo em mim.

.porvir.


Quando a gente não enfrenta os conflitos, internos ou externos, o mundo vem de forma nada sutil e nos coloca contra a parede. E quando ele “cobra”, o preço é bem mais alto e tende a ser mais difícil.
A gente fica esperando o momento certo e nos sentirmos seguros para seguir, temos a impressão infantil de que o porvir será melhor e aguardamos, ansiosos, pelo brinquedo novo, pelo tempo extra, por um futuro nos doado. Afinal fomos crianças boas, merecemos. 
Vamos nos vendo perdidos, esperando, aguardando, acreditando em uma mudança milagrosa. Esperamos que uma força externa nos tire da condição de repouso, de inércia, sem nos atentarmos que o objeto tem a tendência natural de se manter em seu estado inicial. E assim se manterão, o objeto e nós.
Entretanto, nós, diferente dos objetos, podemos utilizar de uma força interna. Podemos nos colocar e nos apropriar do movimento. Podemos ser agentes da nossa própria mudança e receber os bônus e os ônus da maravilha de sermos simplesmente quem somos.

Dois lados da moeda.

Cara,

Esses dias eu a vi, você parecia tão indefesa, mas só nós duas sabemos a fortaleza e os muros que você criou. Eu só queria te dar a mão, abraçá-la e dizer que está tudo bem. Só queria te proteger. Eu queria poder te pegar no colo e te dizer que está tudo bem, mas eu sei que não está e talvez nunca esteja. Eu sinto muito por você. Por nós.
Por anos eu tentei calar a sua voz e peço desculpas por isso, eu não sabia e ainda não sei lidar... Eu queria cuidar de você e às vezes até nos vejo como pessoas diferentes, mas a realidade é que somos a mesma criança machucada, sozinha. Mas nós não estamos sozinhas e nunca estaremos, porque temos uma a outra. 
Eu sei que você não consegue dar nome para o que sente, sei que há uma raiva gigante e inexplicável em seu coração. Sei que é difícil acreditar em Deus, acreditar nas pessoas, na humanidade. 
O que posso dizer é que você não tem culpa das coisas que aconteceram com você. Às vezes nós passamos por situações que não compreendemos e que deixam marcas indeléveis em nossa alma. E a gente aprende a viver com elas.
Você se sente diferente dos outros, você sabe que há uma escuridão e às vezes você se confunde com ela, mas digo, a escuridão não é você, é apenas uma parte da beleza que você tem. Sei que por muitos anos você esconderá essa escuridão e ela virá de uma forma muito mais poderosa e desmedida. 
Sei que você quer que as pessoas a amem e cuidem de você, mas você se esconde, porque você tem muito medo do outro. Medo de se machucar e disso eu entendo bem, pois até hoje não sei lidar com o carinho, com o contato, com o amor, com o zelo. Mas vamos minando isso aos poucos, um abraço ali, outro acolá. Um olhar sem desviar os olhos. 
A verdade é que você é linda (por dentro e por fora), você não precisa ter medo, você não precisa se esconder, você não precisa fingir que é outra pessoa... pelo contrário, o mundo se beneficiaria se tivessem mais pessoas como você. 
Você tem um coração enorme e cheio de amor para dar, talvez tenha acumulado por todos esses anos. Você pode usar máscaras, mas não esqueça de tirá-la de vez em quando e encará-la no espelho. Ser você mesma é a melhor armadilha. Sempre.
Talvez não exista Deus ou pais ou adultos como você gostaria, que não deixariam que isso acontecesse conosco. Mas aconteceu. Nós fomos negligenciadas, é fato. Mas o brilho de nossos olhos cega, os nossos sorrisos encantam e o amor que temos a oferecer é maior do que a dor que carregamos.
Eu não posso protegê-la do passado, mas podemos trilhar um futuro para nós. Eu posso cuidar de você a partir de agora. Eu posso ser a adulta que você não conheceu. Eu posso simplesmente acalentar o seu sono, te abraçar quando você quiser chorar, ou simplesmente ouvir como foi o seu dia. Simplesmente ouvi-la, porque eu sei que você tem muito a dizer.
Eu amo você, eu amo quem nós nos tornamos, dentre trancos e barrancos. 
Eu amo que ainda carrego você dentro de mim, a gente se diverte à beça, a gente ri... temos uma doçura, uma leveza, mesmo com tamanho pesar. E é maravilhoso.
Eu sou você, você sou eu. Nós. Vamos juntas?


Coroa,

Às vezes acho que você se culpa por tudo isso, por não ter cuidado de mim, quando o “trabalho” não era seu. Acho importante te dizer e reforçar o que disse: nós não temos culpa. Não precisa existir culpados.
Minha vida não é de todo ruim, eu tenho meus momentos de diversão. Muitas vezes sozinha ou com amigos imaginários. Isso nos fez criativas. Tantas ideias borbulham, tantos sentimentos, tanta música, tantas brincadeiras, tanta curiosidade.
Eu tive muita felicidade, inclusive na escuridão. Eu não tinha medo, você que ficou com medo por nós. E a verdade é que nada mais me machuca.
Será bom ter você por perto, será bom não me sentir tão sozinha sempre. Será bom partilhar disso tudo com você, pois eu a amo.
Eu vou acalentar o seu sono, te abraçar quando você quiser chorar e ouvir como foi o seu dia. Eu sei que você tem muito a dizer.
Você sou eu, eu sou você. E nós vamos juntas.

5.15.2018

Sobre dar e receber...


Vivemos em uma sociedade em que rege o sistema capitalista, sistema econômico que se estende à política, cultura e até mesmo nos relacionamentos.
As relações são comumente construídas e mantidas a partir de trocas (conscientes ou não, físicas ou não) e se propagam levando em consideração a propriedade privada, a divisão de classes e o lucro.
É muito frequente ouvir pessoas reclamando o quanto se doaram em algumas relações (de amizade, amor ou familiar) e não receberam nada em troca.
Acredito que o maior problema é dar para receber, criando expectativas inalcançáveis e que muitas vezes não são claras.
E, frequentemente, damos aquilo que nos falta, não os que nos sobra... por exemplo, não tenho muito amor para dar, mas tenho a necessidade disso e dou o restinho que possuo. E fico vazio. Ou dou aquilo que me sobra e fico esperando que o outro preencha o que me falta. E continuo vazio.

Cedo o que transborda em mim, o que não me faz falta. Eu doo. E dou. E transbordando deixo ir...