9.06.2017

... eterna


Você havia imaginado que viveria quase 100 anos?
Vivendo, este quase um século, sã e lúcida?
Como foi ver todos ao seu redor esvaecerem?
O que você acredita que emanou para o mundo?
Quais conhecimentos compartilhou?

Eu não te perguntei, desculpe-me por isso.
E por mais que 96 anos pareçam muito, nós não tivemos tempo.
Porque eu, em minha ignorância juvenil, achei que você era imortal.
E acho, no íntimo, que até você acreditava nisso.

9.02.2017

“Você é Carolina ou RH?”

Já ouvi inúmeras vezes brincadeiras sobre a profissão de amigos e a minha, eu, por exemplo, quase todos os dias ouço no almoço ou em algum happy hour: “o RH chegou”, “você é Carolina ou RH?”, ou “não sabia que nutricionista comia hambúrguer”, “não vou cantar em inglês perto de você, não quero passar vergonha” ou, a máxima que todo psicólogo já ouviu, “cuidado com o que fala que ela deve estar te analisando”. Enfim, a partir de tantos exemplos, comecei a refletir o porquê destas piadinhas...
A língua portuguesa tem um jeito peculiar de nos definir o tempo todo, nós “somos” muito mais do que “estamos”, diferente da língua inglesa que “I am” pode significar ser ou estar, em português dizemos, por exemplo, “eu sou profissão x” e, embora, tenhamos estudado muito para nos tornarmos profissionais qualificados e certificados, a profissão não deveria definir um estado absoluto ou quem eu sou, mesmo tendo competências e habilidades que me façam psicóloga e não física, neste minuto entendo que “eu estou psicóloga”.
Por que essa diferenciação é importante? Porque assim as pessoas teriam mais facilidade em diferenciar a nossa vasta possibilidade de ser e estar, em diferentes contextos e derrubar possíveis limites impostos. Questiono-me bastante acerca a visão que as pessoas têm sobre todos os profissionais, como podemos mudar esta percepção, que pode ser uma ideia errônea e mal interpretada (ou não).

 E, antes de mais nada, lembrar que somos todos humanos antes de qualquer recurso. 

8.16.2017

Coadjuvante

Sinto falta do fervor dos devaneios.
Do ócio criativo, das interjeições.
Sinto falta do divagar, do antagonismo.
Uma mera folha em branco ambulante.
Um pedaço de papel amassado na lixeira.
Sem flexionar, eu não existo em mim.
Deixo de ser substantivo próprio.
Transformo-me em comum.

4.24.2017

Com ciência

O fundo do oceano nos presenteia com o fantasmagórico, em seu interior cores vivas e o breu se misturam, se confundem... tornam-se uma pintura surrealista colossal.
Não se sabe os segredos que as gélidas e densas águas abrigam, são quilômetros e quilômetros de mistérios, de desconhecido.
Sabe-se que há vida: monstros e seres inimagináveis que não sobrevivem à superfície, biodiversidade que surge a partir da privação, de um ambiente inóspito e inadequado.
Outrossim, há espécies que iluminam sua existência e ao seu redor, demudados para resistir à opacidade e à falta de incidência de luz das planícies abissais.
Nas profundezas soturnas do oceano, existem criaturas assustadoras e surpreendentes que esquivam do fulgor da humanidade, teme-se seu despertar. Ausentes em sua presença, perpetuam.

3.08.2017

Eu tenho um sonho...

Não sou Martin Luther King, mas eu tenho um sonho.

Eu sonho com o dia em que não precisaremos de datas “comemorativas” para conscientizar as pessoas que somos todos iguais, mulheres e homens, negros e brancos.
Eu sonho com o dia em que o “afortunado” homem branco não me imponha o que vestir, onde e como andar, como pensar e agir, ou pior, o que sonhar.
Eu sonho com o dia em que as pessoas “ajudem” menos nos afazeres da casa e dividam realmente as tarefas domésticas.
Eu sonho com o dia em que eu possa sair de casa o horário que quiser sem medo, sem ter que planejar o caminho menos inseguro.
Eu sonho com o dia em que os xingamentos da minha língua materna não façam, todos, referência a uma suposta inferioridade em ser do gênero feminino.
Eu sonho com o dia que exista justiça e respeito, que todos nossos os direitos sejam iguais e que as leis, assim como a sociedade, não priorizem uma parcela da população.
Eu sonho com o dia em que agredir uma “minoria” (mulher ou jovens negros ou homossexuais ou transgêneros etc etc) não se torne estatística.
Eu sonho com o dia em que eu possa dizer o que penso sem ser taxada como louca, com TPM, feminazi ou de mimimi.

Não quero receber flores da mesma mão que me violenta.
Não quero palavras bonitas proferidas da mesma boca que me inferioriza.
Não quero hipocrisia de quem não me vê como igual.

Busquemos não naturalizar o que vem enraizado sócio historicamente.
Lutemos!
Acreditemos na igualdade, na mudança e em um dia melhor, porque isto é que nós – mulheres – fazemos de melhor: concebemos o futuro.